domingo, 26 de agosto de 2012

Epifania


Caro amigo, desconhecido, inimigo, invisível, o léxico é vasto e, no entanto, a lágrima é salgada, no meu e no seu rosto. No rosto negro onde ela brilha em destaque, feito cravejado diamante, no rosto alvo esmaecida e grave. O soluço que assombra minha garganta em ondas vem igual ao soluço importado pela goela radioativa de Hiroshima, ou da luz quebrada da Candelária. Minha querida, minha querida, ouça o ruído do mato, pensará a árvore, o arbusto, a tulipa, os bichos, o rato, na etnia dos semblantes que os escutam? O sol desviará seus raios de acordo com as castas de nossas cidades? E a lua, tão cantada, tão linda, tão nua, acaso aparecerá a mim na solidão da noite em que choro e esconder-se-á de ti que ri em outro lugar no mesmo instante? A história do mundo é a da incompreensão do outro, antropocentrismo desfigurado pelas regras de mercado... eu, eu, eu, e com um pouco de habilidade publicitária, eu e os meus, os meus, os meus... como se os meus não fossem todos, gato, galinha, menina da esquina, moleque da várzea, papagaio na jaula, pulga, piolho, todos meus, todos eu sou, somos um e vários ao mesmo tempo, folha, vertigem, água em ondas de mar, mansa na lagoa espelhando o ar, o mesmo ar em que plana em voo a suave pomba e o urubu e o avião. Por que bombas então? Sangue quente, jorrando de um corpo quente, de um coração que sentiu medo, que sentiu desejo, que sentiu compaixão, que sentiu dor. Ah, mas coração não sente, tu dirás! Pergunte para o teu então, vá em frente! Ele dirá que sente, sente no lapso do clarão de fogo, que sua morte é em vão! Mas não há de ser, hoje não! Que na lápide da memória viva o ingênuo soldado que tombou no front, o pobre judeu encimando o monte... de gente... de gente morta, asfixiada, queimada! Que nela vibre o réquiem das viúvas do morro ou da Praça de Maio, da vítima sem socorro, do turbante tingido de sangue no deserto árido e dos bombeiros bravos, trancafiados e engolidos no labirinto pela labareda, pelo Minotauro ígneo! Gritos de uma multidão em protesto e tiros, polícia, ladrão! Comunista, porco capitalista, judeu, ateu, à toa, imoral, imã do mal, mal, mal, não sei não... demônios montados em bestas da aço, atordoam farrapos, playboys, mocinhos, rebeldes sem causa aparente, e os filhos dos nossos filhos nas ruas dementes, concretamente abstratas! A chuva cai e faz um barulho suave, molhando a terra seca de quem cultiva, molhando os trapos sujos de quem se vira na pedra do chão, virado pela pedra nas mãos, que não é mais atirada no pelotão de farda, nem na turba que marcha, é agora um simulacro de salvação. No azul da cor do céu, no vermelho do sangue nosso, desse céu, o mesmo céu que acompanha o homem, a mulher, o cachorro, a árvore e a calçada. E o sangue? O mesmo sangue daquele soldado, do parto, do milagre da transmutação do vinho, da dor pintada no quadro. Então, por que tanta incompreensão? Por que querer um quinhão, maior do que o do meu irmão? Eu não quero a sua vida, mas não queira tirar a minha também, somos o que somos, feitos da mesma matéria sublime, por que sonhas ser mais do que eu? Não em valores e virtudes e vontades autênticas, antes fosse... digo mais, mais dessa sanha de poder, dessa ilusão semeada em larga escala, nutrida de promessas falsas no lauto banquete que não se regenera – o tempo! Digo dessa fome de ter mais que ter, comer, beber, dinheiro pra não sei o quê? Pra quê? Há amigo, uma derradeira mão invisível que te irá colher, queira você ou não, perdoe a minha sinceridade mórbida, mas nossos corpos, tão capazes de prazer, não são imortais, tu bem o sabes! Eventos contingentes, previsíveis, doença, moléstia, ciência que fura a fila, demência privada financiada. É verdade que na confusão armada, com sorte tu terás um pouco mais, mas eu sem essa sorte monetarizada, também posso ter, ao acaso e talvez com alguns cuidados, mas haverá hora em que não há demora. O corpo tomba no asfalto molhado, morte súbita também não escolhe telhado, e o tempo passa e passa infatigável, aí então qual será o seu legado? Pedra, papel, vidro e retratos? Quais pensamentos velarão teu último suspiro? Qual lembrança na memória de quem fica irá inspirar a lágrima mais contundente que a lâmina mais afiada, explodindo em saudade, em vaidade de quem é amado, em gritos de vida, de quem viveu ao lado, de desejo de querer ser parecido, que corta a alma? Não, não pense que não passam, os tijolos são quase eternos, atravessam os tempos, mas sozinhos não são mais que nada, nem que tudo do que não vemos na estrada. O que sentimos, no caminho por que passamos, são cores e sons, toques de mãos, beijos de boa noite, correr no campo, fazer fogueira, plantar bananeira, dormir bem junto, ligar pra dizer besteira, ou perguntar se tomou o remédio, pular do alto, da beira, cair na água, solitário, boiar de barriga pro ar, voar, voar... lembrar com gosto doce na boca um calor denso, as horas em que o que se tinha era o que bastava, não tinha preço... O que dizer dos amores? Amor de choupana, no fim de tudo; amor urbano, de cinema e motel; amor de filho, de pai; de grinalda e véu; de crente com Deus; e no terreiro do Preto Velho; na Sinagoga do Seu Jaqueu; na mesquita do Seu Jarrah; ou na catedral que toca o céu; amor do Seu Bêbado na sarjeta; no seio em que o cego se deita; na poesia que ama ao som da música; no grito de dor; o prazer do amor, estendido sobre o dorso da mulher que ama também, e marcado em seu pescoço. O que dizer? Amor, amor... O que dizer meu senhor, dessa coroa calva e grisalha, valeu a pena todos os centavos perseguidos com afinco, no fio da navalha, no limbo cinza das escalas? Valeram as horas roubadas dos filhos? Da esposa amada, da amante, da namorada? E o dedo apontado ou em gatilho, sempre arrogante e ereto, e hipócrita, os preconceitos e futilidades colhidos em programas, na sociedade boçal dos fins de semana, arquitetados pela ganância de jogo inútil em que não há valsa, nem ritmo, nem força natural, o que farão por você todos eles, nessa hora tão certa quando fria e amarga? Sim, é verdade, o tempo não irá voltar... é tarde demais! Ah, pensamento azedo, por quê? Talvez, ou quem sabe mais que talvez, aquele inglês muito egocêntrico e bobo, genial e louco, que bradou há séculos, em suma, que pra a essência do perfume não importa o nome da flor, e aquele judeu nazareno, muito mais louco, que desafiou reis e beijou leprosos propagando a boa nova, ou então o maluco florido de Woodstock, estivessem certos. Há de ser o amor... Que seja, pelo menos em uma era do mundo, a nossa era, a única que existe de fato, a era em que se pode tudo, só não se pode correr pelado, pelo menos não em público, em que há vasto acesso às dobras do mundo, em que só não enxerga quem quer ser surdo, que não escuta e que se conforma mudo...  por isso eu digo, sereno e lúcido, quase em surto, ao ser que mora em mim – que nessa era de absurdos, eu possa enxergar além do que convém, e que o meu olhar alcance com amor o vão em que habitam todos os que eu não sou.

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